27.3.17

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já não mitificam
as aves antigas
ao meu encontro

sequer andam comigo
em meu refúgio
pela manhã

digo que são agora imagens
de contornos imprecisos
que rodopiam em minha pele
a traquinice das suas 
sombras

e aos que acreditam
serem espinhos os gestos
que me saltam dos pulsos
direi apenas
que também pode ser 
atilado o amor

mas sem o seu rosto
meu amor
sem o seu rosto
(seiva elaborada
de todos os meus instantes)
de que outro modo
ascenderei aos desígnios
impávidos neste solitário
voo?


22.3.17

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não me acorde 
com brados de desafios
quando tenho para ti guardado
a mais bela das flores

um a um
removi todos os espelhos 
que de ti 
revelavam serem plebeias
as minhas mãos

mas ainda andam comigo
as clareiras onde as vezes
me desmorono contra o chão 
e o brilho redundante 
de meu nome


16.3.17

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hipnotiza -me
o perfume das rosas
que evola das tuas mãos

mãos que cuidam
restauram a luz do meu corpo
à salga dos caminhos incertos

absorvem de uma só vez
o suor que se precipita a face
dos dias longos

reacendem a noite nos olhos  
se é de pranto o fulgor 
com que te acolho os passos

para que me seja sempre
de sol as manhãs



8.3.17

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vejo -te melhor agora 
que as ruas ficaram vazias
e as sombras esconderam -se
sob as árvores

em dias assim

costumo visitar os teus olhos
(com cautela)
para que eles não me ceguem
e não sangrem a mais
clandestina das palavras
pois
há tanto sol a me devolver
à luz

nem sempre me acolhem
ou me decifram
os enigmas do caminho 
mas 
como esse céu de quase outono 
tremelicam 
em asas transparentes
feito água de beber