21.2.17

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dessa vontade de ir
desacompanhada da vontade 
de chegar

(ainda que por cansaço
as vezes me perca)

não me apetece as desventuras
de quem aguarda do outro lado
quem nunca chega
preso que está ao fel
dos gestos que não
sobreviveram ao caminho

peregrina obstinada
não sei me ater aos elos
intermináveis desse dilema

mas 
deixo flores à porta
das belas tempestades
que me acodem
desobstruindo os poros polutos
dessa contradança








14.2.17

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despem -me os teus beijos

esse lugar velado
a acrescentar lume
as asas inesgotáveis do voo
em lençóis de vento
onde perduro à deriva
para além do tempo

sem muita aptidão
irrompo
o véu e o fel
que se assentam nos contornos
escarpados dos teus montes
para que te seja
ameno o meu pouso

entre idas e vindas
deixo -te o sabor a mar
acorrentado a memória
e o perfume discreto
das minhas mãos


7.2.17

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agradabilíssimo é o porto
ao qual vieste para
observar os pássaros
viajantes em crinas de vento e de sal
com o sol a lhes salpicar as asas

mas é preciso comungar com o voo
aferir os desenganos das rotas
balbuciar algumas letras a mais
invocar o contentamento 
ou os barcos abandonados no cais

é preciso que se regressem  
às sutilezas das manhãs
ricas em metáforas

é preciso que se
façam ninhos 
no olhar