21.12.16

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Isabela





quando dezembro chegou
trazendo nos braços
um deus menino
empapuçado das pequenas ilusões
sem os azuis dos dias claros
e os pássaros  
cuja verdura já não perdura no olhar
é que pudemos perceber 
a pele tatuada de vazios
dos que inventavam flores
rubras irreais

não se leva ao cabo
o que não se constrói 
com o suor das mãos
dizia mamãe

já agora
como apátridas em combustão  
fenecemos todos nus
pelos beirais
de um país que não é nação 

renasceremos?   






4.12.16

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é sempre breve
o tempo de colher
eternidades

longínquo é o instante
de se ajustar
aos ponteiros voláteis
desse mosaico
de ilusões

dos teus lábios
[chama de inenarráveis
intenções]
acolho o que me acolhe
na contramão dos afetos
e sobretudo
a negritude desse chão
onde agora
estendo um alfarrábio
de timbres e estrelas
para que nele adivinhe
a luz percorrendo -me os horizontes
pontuando o tempo
com inabalável exatidão


27.10.16

Dom Casmurro



"mas em tudo
 se o rosto é igual
a fisionomia é diferente

se só me faltassem os outros  vá lá;
um homem consolá-se mais ou menos
das pessoas que perde...


 mas
falta eu mesmo e essa lacuna é tudo"


Dom Casmurro de Machado de Assis







6.9.16

Despidos todos os barcos






Despidos todos os barcos
nesse rio de saliências
anunciam os pássaros
na nudez dos gestos
e outras memórias
o tempo de alumiar
olhos nos olhos
o porvir de mais uma
primavera

Cambiantes de terrenas intenções
ajuízam
de asas em punho
um mar de infinitas possibilidades



1.9.16

Apetece - me






Apetece - me o riso.
Os sortilégios dos dias que regressam mansamente na menina do olhar.
O voo elíptico entre partidas e chegadas.
O espalmar de mãos na pedra vencida.
Apetece - me saborear a vida e o riso e essa alegria de quem acabou de descobrir um pouco mais do mundo.

30.8.16

Esta saudade




















Esta saudade
de te chamar pelo nome
Este receio
de te chamar pelo nome

Esta saudade
de manter a palavra
Este receio
de apenas manter a palavra

Esta saudade de uma vida
que não dê em poema
Este receio de um poema
que antecipe a vida

Ulla hahn


7.6.16

A pulso























Toma o pulso aos objectos que gravitam no coração da treva. Ausculta-lhes os sinais vitais.
Também eles sussurram às paredes os seus desvarios.
Também eles projectam as suas sombras ao entardecer. 
Decifra o mistério do sangue no poente. 
Descodifica-lhe as coordenadas que conduzem à sua irradiação.
Tudo se constrói pelos veios da luz. Pelos êmbolos da claridade.
Não é o teu corpo um ponteiro escuro e frio à espera de corda para se erguer na haste do dia?




Texto de V. Solteiro


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se acaso for de amar o sorriso que te veste   me chame de mãos dadas pouco a pouco na alegre  ventura de olhar para...