22.3.17

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não me acorde 
com brados de desafios
quando tenho para ti guardado
a mais bela das flores

um a um
removi todos os espelhos 
que de ti 
revelavam serem plebeias
as minhas mãos

mas ainda andam comigo
as clareiras onde as vezes
me desmorono contra o chão 
e o brilho redundante 
de meu nome


16.3.17

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hipnotiza -me
o perfume das rosas
que evola das tuas mãos

mãos que cuidam
restauram a luz do meu corpo
à salga dos caminhos incertos

absorvem de uma só vez
o suor que se precipita a face
dos dias longos

reacendem a noite nos olhos  
se é de pranto o fulgor 
com que te acolho os passos

para que me seja sempre
de sol as manhãs



8.3.17

Os teus olhos









vejo -te melhor agora 
que as ruas ficaram vazias
e as sombras esconderam -se
sob as árvores

em dias assim

costumo visitar os teus olhos
(com cautela)
para que eles não me ceguem
e não sangrem a mais
clandestina das palavras
pois
há tanto sol a me devolver
à luz

nem sempre me acolhem
ou me decifram
os enigmas do caminho 
mas 
como esse céu de quase outono 
tremelicam 
em asas transparentes
feito água de beber



21.2.17

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dessa vontade de ir
desacompanhada da vontade 
de chegar

(ainda que por cansaço
as vezes me perca)

não me apetece as desventuras
de quem aguarda do outro lado
quem nunca chega
preso que está ao fel
dos gestos que não
sobreviveram ao caminho

peregrina obstinada
não sei me ater aos elos
intermináveis desse dilema

mas 
deixo flores à porta
das belas tempestades
que me acodem
desobstruindo os poros polutos
dessa contradança








14.2.17

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despem -me os teus beijos

esse lugar velado
a acrescentar lume
as asas inesgotáveis do voo
em lençóis de vento
onde perduro à deriva
para além do tempo

sem muita aptidão
irrompo
o véu e o fel
que se assentam nos contornos
escarpados dos teus montes
para que te seja
ameno o meu pouso

entre idas e vindas
deixo -te o sabor a mar
acorrentado a memória
e o perfume discreto
das minhas mãos


7.2.17

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agradabilíssimo é o porto
ao qual vieste para
observar os pássaros
viajantes em crinas de vento e de sal
com o sol a lhes salpicar as asas

mas é preciso comungar com o voo
aferir os desenganos das rotas
balbuciar algumas letras a mais
invocar o contentamento 
ou os barcos abandonados no cais

é preciso que se regressem  
às sutilezas das manhãs
ricas em metáforas

é preciso que se
façam ninhos 
no olhar


31.1.17

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é cedo para abismos
se me ardem ainda
as paredes da casa
e o verão alonga -se
nos olhos transeuntes
das ilusões

deles chegam -me
ares de desatino
e anjos negros trazendo
um tumulto de pássaros
desgovernados pelas mãos

nos cristais dos dias tristes
não chegam a amadurecer
fenecem desfigurados
sob uma nuvem de poeira
de tropel

portanto
se me perguntarem 
direi:
é cedo para abismos


......


Um dos meus poema foi declamado num outro sotaque. Gostei muito...  Aqui